Reitor da Universidade Nova de Lisboa: “As condições económicas são o maior obstáculo ao acesso e equidade no ensino superior”
Esta terça-feira, Paulo Pereira toma posse como novo reitor da Universidade Nova de Lisboa (UNL), onde estudam mais de 25 mil alunos. Reuniu mais votos que outros quatro candidatos, incluindo a ex-ministra Elvira Fortunato, e é o primeiro investigador a chegar ao cargo e o único entre todos os reitores portugueses
Em entrevista ao Expresso, o investigador da Nova Medical School e novo reitor da UNL fala do futuro dos vários campus da universidade, da integração do Instituto Superior de Psicologia Aplicada e da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril e da estratégia para os próximos anos
Devia haver uma carreira única de professor e investigador?
Acho que fazia sentido. Não há nenhuma razão para não existir uma carreira única, desde que haja perfis diferenciados e que haja tempo protegido para a ciência. Deve haver pessoas que, numa determinada fase da carreira, têm tempo reservado para fazer investigação, muito mais do que para dar aulas. É inconcebível que alguém tenha uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação de três milhões de euros e tenha, ao mesmo tempo, uma carga letiva forte que não dá tempo para a investigação. E, pelo contrário, um investigador que durante muito tempo não tem projetos que financiem a sua atividade pode passar a dar mais aulas.
A internacionalização tem sido uma das apostas fortes da UNL nos últimos anos, com a mudança do nome das faculdades para Inglês e vários mestrados lecionados nessa língua.
Também poderá haver licenciaturas só em Inglês?
Sim. Isso é uma decisão das faculdades, que eu encorajo. Não vejo problema nisso desde que haja licenciaturas também em português. É importante que haja uma dimensão bilingue para atrair estudantes internacionais. É uma parcela importante das receitas e traz diversidade. É um erro pensar que devemos competir com a Universidade de Lisboa, de Coimbra ou do Porto e que são esses os nossos padrões de referência. Não são. São as universidades internacionais. Mas ficaria muito desapontado se nos transformássemos numa universidade que esqueceu a sua matriz cultural. A UNL é uma universidade portuguesa que ensina alguns cursos em inglês e que atrai uma população internacional. Não é só em inglês; temos muitos brasileiros e pessoas dos PALOP, que também devem ser encorajadas a vir.
Em que áreas do conhecimento pretende apostar mais fortemente?
Até agora as escolas decidem de forma muito autónoma as suas prioridades. E isso tem sido o motor para o desenvolvimento da universidade, que é um pouco assimétrico porque as escolas são diferentes e a procura de determinadas áreas sofre oscilações. Por exemplo, há muitos anos havia uma grande procura por Engenharia Civil e depois deixou de haver. São ciclos. Por isso, uma universidade como a Nova tem de ter uma estratégia que não seja excessivamente dependente de modas. Temos de ter uma matriz de base e ao mesmo tempo apostar em áreas que são emergentes e que podem ser bandeiras durante um tempo.
Por exemplo?
As tecnologias de informação e a inteligência artificial, que é uma área muito explosiva. É errado a universidade não estar sensível a essas tecnologias e não dar formação nessa área. Acho que podemos investir mais fortemente, por exemplo durante cinco anos, para nos afirmarmos como uma universidade de excelência nesse domínio. E depois surgirão outras áreas emergentes nas quais viremos a apostar. Não podemos ficar cristalizados.
A aposta feita nas diferentes faculdades tem sido equitativa ou algumas foram deixadas mais para trás?
Do ponto de vista reputacional, temos áreas que estão na vanguarda e outras que, por circunstâncias várias, talvez tenham ficado um bocadinho para trás. Acho que a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), por exemplo, pode fazer melhor, mas é extremamente importante. Para mim é inconcebível uma universidade que se diz global não ter um curso de filosofia ou outras áreas desse campo. Como é que a FCSH pode afirmar-se num mundo que em que o foco não está nas ciências sociais e nas humanidades da maneira que estava anteriormente é algo que a própria faculdade terá de pensar. Não será o reitor a dizer ao diretor da Faculdade o que tem de fazer. Acredito que a escola saberá adaptar-se aos tempos.
Há um ano a Universidade anunciou ao Expresso que ia integrar o ISPA. Em que ponto está esse projeto?
Foi aprovado pelo Conselho Geral da universidade, do qual eu fazia parte, e está numa fase bastante avançada. Tenho pena que não tenha havido uma discussão mais participada sobre a integração do ISPA. É uma área que não temos e que pode fazer sentido [integrar], mas também não temos Arquitetura, por exemplo. Podíamos ter discutido isso, mas já foi aprovado e não vou recuar nessa decisão.
Quando é que os alunos do ISPA deixarão de pagar mensalidades, com a integração na rede pública de ensino superior?
Diria que no próximo ano.
E há outras escolas privadas que também vão ser integradas na UNL?
Recentemente foi também aprovada a integração da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril e também é para avançar.
A ideia é expandir a oferta para cobrir todas as áreas?
Isso faz pouco sentido. Temos de decidir coletivamente que tipo de universidade queremos. Percebo que pode haver alguma política de integração de escolas [privadas] de dimensão mais reduzida, mas acho que a universidade tem de refletir sobre a sua estratégia. Devemos ter áreas de diferenciação para sermos competitivos. A ideia não é ir a todas.
Confirma-se a transferência da nova Medical School para o campus de Carcavelos?
Há essa expectativa, mas há coisas que precisam de ser resolvidas. Ainda não sabemos bem onde iriam ficar os edifícios onde está agora a investigação e enquanto não houver uma solução para todas as áreas que compõem a faculdade, a decisão não está tomada. Os edifícios [em Carcavelos] ainda não estão construídos e isso ainda pode recuar. Há várias dimensões em jogo. Muitas das pessoas que ensinam na faculdade são médicos que trabalham nos hospitais e temos de ver onde é que devem estar estes polos para garantir que não se criam constrangimentos excessivos às pessoas.
E relativamente à transferência da Faculdade de Direito para Carcavelos?
Isso vai para a frente.
A FCSH sempre passará para Campolide?
A FCSH precisa de instalações adequadas e na Avenida de Berna não tem. Por isso, a transição para Campolide não oferece grandes dúvidas.
Há pelo menos dez anos que não entravam tão poucos candidatos no ensino superior. É preocupante?
Preocupa-me bastante que a questão económica seja um entrave no acesso ao ensino superior. Acho mesmo que é o principal obstáculo à equidade. A discussão sobre o custo das propinas parece-me razoavelmente inútil porque o problema não são as propinas, mas os quartos. Precisamos de investir muito a esse nível. A questão das residências universitárias, das cantinas, da qualidade de vida dos estudantes e da sua saúde mental é uma prioridade crítica. Há coisas que a universidade pode fazer, mas há outras que são medidas políticas, já que o problema é mais global. O que eu quero fazer é garantir que vamos canalizar todo o investimento possível para melhorar as condições de acesso, primeiramente através de residências, mas também de espaços de saúde, cultura, lazer e desporto.
Foi vice-presidente da FCT. Como é que vê a decisão do Governo de extinguir a FCT?
Não tenho nenhum preconceito contra reformas, mas neste caso é preciso uma reflexão. Primeiro o Governo devia ter apresentado a sua visão para o desenvolvimento da ciência e da investigação em Portugal e a estratégia que tem para cumprir essa visão. E, depois disso, alguém tinha que ter explicado de que maneira é que esta fusão da FCT com a Agência Nacional de Inovação ajuda a cumprir essa estratégia. Mas isso não foi feito. Não sabemos qual é a visão do Governo para a Ciência e, assim, é muito difícil saber se este é um modelo adequado. Como disse, fui vice-presidente da FCT e, na altura, pensámos em mudar várias coisas, mas nunca ocorreu a ninguém extingui-la.
Foi uma decisão precipitada?
Não foi devidamente comunicada. E por isso tenho dúvidas. Não há garantias que as coisas funcionem melhor com um organismo maior. Por outro lado, gostava de perceber como vai ser gerida a dimensão da investigação fundamental neste novo modelo. A investigação fundamental é essencial e se não forem as universidades a fazê-la não serão certamente as empresas porque não é lucrativa. Tem mesmo de ser o Estado a financiar e não saber como vai ser o financiamento e que dinheiro vai ser alocado deixa-me preocupado. A investigação fundamental, baseada na curiosidade, é a melhor garantia que temos para uma vida mais próspera no futuro. Não sabemos que problemas vamos enfrentar daqui a uns anos e de que ciência vamos precisar para os resolver. A pandemia foi um exemplo disso… Por isso, é uma espécie de seguro coletivo para o futuro.
História de Joana Pereira Bastos Expresso